terça-feira, 22 de Maio de 2007

NACALA - Moçambique

Era uma vez...

Uma menina que era muito "envergonhada", mas que gostava muito de cantar e fazer teatro. Isso serviu-lhe para que na Escola Primária , a aproveitassem para "representações" diversas tais como: teatro, poesia e canções, principalmente no dia 10 de Junho -o dia de Portugal, para ela usar os seus "talentos" e assim ter começado a desinibir-se.
Essa menina chama-se: Elisa. Isto passou-se num lugar muito distante, na costa Oriental da África, num grande País que era Moçambique.
Viveu primeiramente numa terra chamada "LUMBO", que ficava mesmo em frente da Ilha de Moçambique ( 1954/1955). Como o pai era Ferroviário, foi transferido para Nacala Porto., também conhecida pelos naturais como: MAIAIA.
NACALA, tem uma bela baía com o nome de: Fernão Veloso, que fica a uns 12Km da localidade. De águas muito límpidas, onde se vê o fundo do mar é de um azul esverdeado que nos faz "sonhar"...
Vivíamos nessa altura, bem pertinho do mar... apenas uns 400/500 m da praia. Imaginem que maravilha! Com que saudades, recordo também as vezes que depois da Escola, íamos até ao "mato" apanhar e comer as pequeninas "maçanitas", o caju (fruto ácido que dá a saborosa castanha) , o jambalau e as boas e saborosas mangas. As deliciosas atas, goiabas e papaias, essas tínhamo-las nos nossos quintais...



















Que vida tão feliz e tão descontraída!!!...

A povoação era constituída por pequenas casas, algumas de madeira e zinco (por isso muito quentes). Só havia duas Estações do ano e o calor era mesmo abrasador- (transpirava-se o dia todo)...
Tínhamos de tomar o "quinino", posteriormente substituído pela "resoquina" por causa do paludismo e mesmo assim as febres quando vinham eram mesmo muito altas. Eu quando garota, porque tinha a pele muito branca, com o calor, ficava com o corpo todo cheio de umas borbulhinhas vermelhas que chamavam: "líquen" e que davam muita comichão...
Nessa altura a carne que se comia era apenas de caça e ou galinhas tão saborosas que se compravam aos indígenas que vinham vender em "cangarras" ás casas dos europeus. Por isso, normalmente as pessoas, tinham criação de animais em suas casas.
Vou contar um caso que por ser interessante, mais parece "uma história"...A minha mãe teve sempre muitos animais de criação: coelhos, galinhas, e patos. Um dia decidiu criar também um leitãozinho. Dizia que era para um dia fazer a "matança do porco" e fazer chouriços, morcelas, presunto etc. como se fazia em Portugal. O "leitãozinho" foi crescendo vendo os patos atrás da minha mãe, quando ela ía ao quintal dar-lhes de comer. Era de rir quando víamos os patos seguidos dos patinhos e por fim o leitão, seguirem a minha mãe para todo o lado.
Acabou por se afeiçoar tanto ao mesmo, que quando o meu pai viu que estava na altura de o matar, até pediu que não o fizesse...
E o nosso "mainato" Abacar, dizia :
-"ei meninas, eu nunca vistes coisa assim, "(parece chiquembo).
Mas como vivíamos junto ao mar, não nos faltava o saboroso carapau, o peixe serra, as garopas, as lulas, já para não falar do excelente marisco. Fazia-se caril de caranguejo a maior parte dos Domingos e do camarão nem é bom lembrar...

E o que nós comprávamos com apenas uma "quinhenta"!!! Muito dinheiro na altura.
Também é célebre a frase dos "mufanas"a pedir:
- "ei patrão, quinhenta, por favor!"


Recordo ainda hoje os "grandes batuques", onde os negros aos fins de semana, dançavam e cantavam toda a noite, com a sua grande alegria e onde a mulher usava as lindas capulanas cheias de cores vivas.A vida era calma, alegre e formávamos como que"uma família". Não havia " os medos" nem "roubos".
Ao Domingo, a pequenada depois da missa, dirigia-se logo pelas 8h00 à Estação dos C.F., para esperar a "automotora" que vinha de Nampula, uma cidade muito bonita e bem delineada que ficava no interior a cerca de 200 km e que trazia pessoas que vinham aproveitar os banhos de mar. Imaginem que às vezes a automotora atrasava 15 minutos. Isso significava que tinha tido um "furo" num pneu!
É verdade... a automotora tinha rodas e pneus.


Na Estação dos C.F.M.-Nacala-1956
(Alice, Natália; ? Ica Cabral, Milu Patalica, Bébé Cabral, Anabela Cortês, Ana Maria, Elisa e Mabília)
A maior parte das vezes ao Domingo o tempo era passado na praia onde se faziam os "pic-niques". No final da tarde, depois da partida da automotora, havia as tardes dançantes no Parrô, (o Clube do Ferroviário), que ficava também mesmo em frente ao mar.Mas...essa menina foi crescendo e queria continuar a estudar. Só que a localidade era tão "pequenina" que só tinha Escola Primária. Assim  depois do exame de admissão à Escola Técnica, teve de ir para a tal cidade distante: Nampula!
Em Setembro de 1957, vai para casa de um casal amigo dos pais e... sente-se muito sozinha e triste.
Por princípio só iria a casa uma vez por mês. Chorava muito com saudades da mãe e da irmã mais nova, a Mabília, a quem estava muito ligada, pois as duas mais velhas (a Cidália e a Otília) tinham 8 e 10 anos mais que ela, já namoravam e casariam em breve. O que realmente aconteceu com a Cidália que casou e foi viver para a tal cidade, onde então passou a viver com ela.
Mas, como era "cheia de vida e de alegria", logo penso inserir-se no grupo de teatro e banda da Escola. Fez muitos amigos por lá até ao final do Curso Comercial.










Foto no Bairro da Muala
onde viveu com a sua irmã: 









Finalistas do ano lectivo: 1962/63
no Clube do Niassa.
Ao fundo e ao centro, vê-se o Governador Civil (Granjo Pires) e esposa, bem como o sub-director da Escola.
A "rainha" de Finalistas foi a Natália Oliveira
O "rei" foi o Rui Cabral.








Esta era a bela cidade de Nampula

Mas, o tempo passou e com ele tudo mudou.
A menina tornou-se "mulher", voltou para a sua terra de eleição, onde viviam seus pais, empregou-se e conheceu um "bonito rapaz" que veio de Lourenço Marques, namorou e...casou
em 1965, na:



Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem de Nacala . Também Nacala foi crescendo e tornou-se uma cidade bonita, com um grande porto de mar, grandes firmas, Bancos, gasolineiras, Empresas de exportação de caju, de sisal, a fábrica de cimentos, etc.
Como ela tivesse visto um bom futuro nos Bancos, decidiu concorrer ao Banco Nacional Ultramarino (lá era o Banco emissor) e deixar os Correios. Teve três filhos e construiu uma casa muito bonita na parte alta da cidade, pois pensava ficar "para sempre" naquela nova cidade.

Mas, afinal...
"a vida dá muita volta"...














Dá-se o 25 de Abril de 1974 na Metrópole.Com a Independência de Moçambique em Junho 1975, começa a "debandada"daquele País.
O presidente da Frelimo (Samora Machel), em cada "discurso" que faz, tão cheio de ódio e racismo... faz com que se encham os aviões e os navios com destino a Portugal.
Todos querem ir embora; enquanto é tempo!

São tempos de : vinganças,assaltos, prisões e ... sobretudo, muito medo!

Nos comícios as palavras de ordem eram:
"abaixo o colonialismo, o racismo; o imperialismo". "Fora com o inimigo do Povo", (ideologia Marxista).Fazem-se acordos...(os do B.N.U. cooperação com o Banco de Moçambique) e alguns ainda com "sonhos" de que talvez conseguissem lá ficar...
Mas, o Partido da Frelimo, não tinha mesmo interesse em que o Português lá permanecesse.

Os "medos" eram muitos e tudo nos era tirado.Vieram as nacionalizações. Os géneros alimentícios começam a faltar. A insegurança era total!Os "cooperantes", não ficaram "imunes". Tivemos como os outros, muitos "problemas". As prisões passaram a ser constantes ao ponto de em 1977 ter de sair uma lei para protecção dos cooperantes (expulsão do País em 24H se não fosse julgado).
Como recordo também as "lavagens ao cérebro" que nos faziam semanalmente (após horário laboral, sem hora fixa para acabar) as "comissões de trabalhadores" do partido da Frelimo, para "nos engajarmos"...
Ou quantos "Moçambicanos" ensinei no Banco para me substituírem e que vieram "mesmo antes de mim"!?
Era preciso ser-se "muito forte"...e eu e o marido tentámos sê-lo, por força dos nossos empregos e dos nossos filhos. Se cumpríssemos o contracto, teríamos cá em Portugal, os nossos empregos e poderíamos trazer também os nossos bens!
Março de 1978. Termino o meu contracto com o Banco de Moçambique e venho para Portugal continental ou Metrópole (como nós lá dizíamos).
Apresento-me na Sede em Lisboa e dão-me três Agências à escolha para trabalhar. Como não conhecia nenhuma nem família tinha em qualquer destes lados, optei por Vila Nova de Ourém por ser perto de Abrantes, a cidade onde vivia agora a minha irmã mais nova, a Mabília.
Os meus pais, voltaram às origens e encontravam-se a viver em Vildemoínhos - Viseu com as minhas filhas que tinham vindo com eles em 1976, pois lá o ensino estava, como se costuma dizer, "pelas ruas da amargura". A História que ensinavam agora era sobre a "Frelimo/Revolução", e as crianças negras a dizerem: "vão para a vossa terra"(que era lá) e a terem de fazer também: "a machamba colectiva".

Junho de 1978 vem o meu marido (também bancário).
É colocado na cidade de Leiria. Por isso, passado um ano consigo a transferência para esta cidade do Lis, onde passamos a residir, sem no entanto termos cá qualquer familiar ou amigos.
Foram anos de adaptação, sentimo-nos "desenraizados" e apelidavam-nos de "retornados".As pessoas "reconheciam-nos" até por certas expressões, que usávamos, desconhecidas aqui. Por exemplo:
"Tá-tá"(adeus), a geleira, o maxibombo, o zipe, uma chuingum, uma quinhenta, "suca"(para os cães), maningue, chonguila, marrusse, kanimambo, etc. Foram também anos de "luta", até sermos reconhecidos no nosso trabalho.

No entanto quero aqui registar também de que os primeiros amigos que arranjámos nesta cidade, foram quando alguém ligado à Igreja, nos convidou para fazermos parte duma Equipa de C.P.M. (Centros de Preparação para o Matrimónio).
A partir daí, nunca mais deixámos esse movimento, que muito nos tem ajudado na vida familiar e de relações. Fomos já responsáveis da Vigararia e há seis anos a esta parte que somos o Casal Responsável Diocesano. Estamos em processo de eleições, pois os Estatutos só permitem dois mandatos. Mas... enquanto podermos, cá estaremos para "ajudar" outros casais, em processo de formação.

Quando em Outubro do ano 2000, entrei na "reforma", (a pedido), porque sempre fui muito ligada à amizade, decidi começar a "procurar e localizar" os antigos colegas e amigos de Nampula.
Demorou cerca de dois anos em "pesquisas", para descobrir a maioria e poder organizar um encontro com os alunos da E.I.C. Neutel de Abreu de Nampula, dos 40 anos do Curso Comercial. Aconteceu em 5 de Abril de 2003, num almoço/convívio na Quinta do Paul- Ortigosa -Leiria, onde houve também uma parte "recreativa/cultural" com Fados pela agora Dr.Mª Jesus Marques Ferreira, poemas lidos e cantados por Elisa, (retirados do Livro IKOMA) da autoria da nossa também Doutora Maria Rosário Almeida, quadras alusivas, feitas também por mim e a participação do Coral a que pertenço (da CGD - ex BNU).Recordando um "enxerto" de alguns poemas da autoria da amiga Maria do Rosário:
Começava assim:
"Elisa ou é, Elisa ou á... que lindos poemas que tu vais cantar..."

Logo antigos colegas e amigos, foram-me dizendo para ir pensando em organizar as BODAS DE OURO, da E.I.C. Nampula que seriam daí a dois anos.
O João Taborda e a Dalila Ferreira, esta de Nacala (ambos colegas da C.G.D., um no Porto, a outra em Lisboa), ofereceram-se também para colaborar.
Este grande acontecimento que teve a presença de 250 antigos alunos, pessoal administrativo e professores, teve lugar em 2 de Abril de 2005 no Hotel Cristal da Praia da Vieira, também com momentos "recreativos e culturais"e um filme dos tempos remotos e actuais da Escola e alunos. Elaborei ainda um livrinho com as moradas obtidas e que totalizam para cima de 350 (c/moradas, telefones fixos/móveis e endereços electrónicos).Para finalizar, gostaria de dizer que afinal depois da adaptação voltei a fazer novas amizades. Hoje sou eu que organizo os almoços de antigos empregados do B.N.U-Leiria. Pertenço também à Direcção do Coral. Organizo os passeios do Coral e tenho "montes" de amigos!

O mais difícil, passou...
Descobrir-vos, fazer lista...
Quem os "Amigos" encontrou

NÃO MAIS OS PERCA DE VISTA!













Num passeio do Coral a Leça da Palmeira
anos 90 (quando a maioria dos homens eram ainda colegas do Banco)
Esq. Cima: Carvalho Sousa, Carlos Sousa, Louro, Viriato, Joaquim Casal, Adriano Santos, Luis Guerra, João Loureiro, Victor Brites, Jaime Em baixo: Genialda, Emilia, Wilma, Dina, Manuela, Pieedade, Lurdes, Lucilia, Mª. Anjos, Júlia, Emilia Carvalho.
João Pinto, Elisa,Ana,( filha do Armando), Manuel Santos, Joaquim Narciso (maestro), Armando Fernandes e António Carvalho.








Num convívio dos colegas do BNU-Leiria em 1993.




















E por fim, o Coral do qual faço parte desde o início, ou seja: 1987.
















9 comentários:

Maria dos Prazeres disse...

que bom recordar pessoas queridas!
Antes de mais sinceros parabéns pelo teu blog. Adorei. Li a correr com muita avidez e voltarei.

Lembras-te e mim? sou a Prazeres (padeirinha da SIPAL que casou com o Amadeu das motos e do Agostinho dos Santos) Trabalhei contigo no BNU Nampula e sabes? O segredo da vida é este mesmo. Encontrar velhas vivências vale mais que todos os milhares de quinhentas que lá deixamos... dá força, rejuvesnece dá muitos

PRAZERES
obrigada por este momento.

Elisa Pinto disse...

OLÁ Maria dos Prazres:

Ando a perguntar a "muita gente" pelo teu contacto desde que li o teu "belo comentário", que agradeço.

Não deixaste o teu telefone ou endereço electrónico, fico á espera...

Beijos

Elisa

Anónimo disse...

Ola, muito gosto em ler a sua historia! foi muito triste o q aconteceu nessa altura da independencia. meus pais e avos falam muito sobre isso! bem eu ja estive em nampula assim como Nacala, pois meu pai trabalha por essas bandas na comercializacao da amendoa de caju! eu sou natural de Maputo, antigamente lourenco marques! nascido em 1982! Adorei ler sobre a sua convivencia nesta terra! concordo plenamente com as belezas da terra! fernao veloszo continua 1000, tem tbem relanzapo, + linda ainda! a Muala expansao ta mais vasta e habitada. bem no k diz a reabilitacao e construcao das cidades cntinua bem fraco em nampula, ja e diferente a cidade de nacala, ta muito desenvolvida, deve se ao porto, e as belas prais de certeza! O chato e k nao e o povo k domina, + sim os estranjeiros... mas isso e me todo mozambique, deve estar no peito dos mocambicanos ou sei la! gostaria de puder um dia trocar palavrinhas cnsigo! Muito gosto mesmo! meu email e : virus_opecador@hotmail.com
tenho um fotolog em k pode ver fotos de ca: www.fotolog.com/virus_opecador
Um abraco!Meu nome E Bruno Miguel da Silva

Maria dos Prazeres disse...

Então menina? Tão ocupada que não actualiza o blog? Vamo lá dar continuidade, sim, porque o inicio está óptimo

Beijinho grande e até um dia destes

Prazeres

moçantuga disse...

Que saudades!
Nasci em Nampula,mas vivi em Nacala até aos 9 anos.Hoje tenho 42,estou neste lindo Portugal.mas o que li aqui fez-me «voltar».Muito obrigado.
PS-Recordo especialmente as batucadas MAPIKO que nos alegravam os sábados à tarde.Não havia televisão...

moçantuga disse...

Um macua como eu,radicado há tantos anos em Portugal,só pode «voltar» por uns instantes quando lê o que aqui foi escrito.Obrigado

josé amorim disse...

Para Elisa Pinto. Chamo-me José Gomes Amorim. O meu pai tinha uma carpintaria-marcenaria no Lumbo. Tenho muitas novidades e recordações para contar. Deixo os nºs meus telef.:211977755, 210990749, 931132772. Aguardo v/contacto. O seu pai alugou-me um xalé em Nacala. Parte alta, em Agosto ou Setbº 75. Saudações nossas. 2 irmãs suas estudaram no Lumbo.

josé amorim disse...

Fiquei contente por encontrar este blog seu com os seus comentários e fotos e videos. A foto da casa em Nacala, onde a Elisa está com as suas
meninas, perto desse lugar, numa casa vossa, eu morei, alugada pelo seu pai Oliveira, em Agosto de 1975. Gostei muito de rever através do blog. Saudações.

josé amorim disse...

Fiquei contente por encontrar este blog seu com os seus comentários e fotos e videos. A foto da casa em Nacala, onde a Elisa está com as suas
meninas, perto desse lugar, numa casa vossa, eu morei, alugada pelo seu pai Oliveira, em Agosto de 1975. Gostei muito de rever através do blog. Saudações.